Didi, o homem de todos os instrumentos

O caminhoneiro Didi, que durante toda a vida surpreendeu os amigos ao revelar que seu nome não era Valdir e sim Francisco, deu mais um susto em todos que o cercavam ao trocar a boleia por um violino. E mais, depois do violino veio o violão, o cavaquinho, a sanfona, o bandolim, a zamponha. Hoje, toda a sala em que a família recebia visitas está tomada por mais de 40 instrumentos. E o que é verdadeiramente surpreendente: Didi toca todos eles.
Didi é na verdade Francisco Sanches Garcia e na parede da sala, que antes era sala de visitas, estão fotos de um FNM azul, com que a partir da década de 60, ainda menor de idade e sem carteira de motorista, começou a percorrer as estradas do Brasil, dando início a uma carreira de mais de 30 anos como caminhoneiro. Foi graças ao Fenemezão que, trinta e tantos anos depois, ele se aposentou como próspero empresário do ramo de transportes, com alguns caminhões modernos continuando a trajetória de percorrer as estradas brasileiras. Descendente de espanhol pelo lado do pai e da mãe, que nasceu na comunidade rural de Içara, no município de Astorga (a 44 quilômetros de Maringá), durante as décadas na boleia ele nunca se interessou por música, a não ser por algumas vezes que ligava o rádio para ouvir uma ou outra canção sertaneja, de preferência as mais antigas, aquelas ainda tocadas com viola e sanfona.
Embora continue envolvido com os negócios do transporte, hoje em Astorga é como músico que ele é conhecido, logo ele que nem se interessava por música. “Não sei explicar de onde veio esse interesse pela música. O que sei é que um dia, depois de ter me aposentado, ouvi alguém tocando um violino e aquele som tomou conta de mim, me apaixonei e quando me dei conta já tinha comprado um violino e estava arranhando as primeiras notas”.
A nova paixão foi motivo para o desespero de dona Luzia, mulher de Didi, que a partir daí tinha que aguentar o dia inteiro aquele barulho que estava longe de ser música.
Mas, para a surpresa dela (e dele), aquele ruído começou a tomar forma, virar alguma coisa parecida com hinos evangélicos e mais um pouco já era entendido como música. Com o tempo, o arranhador de violino já era chamado para tocar na Igreja Batista, lá na frente, como um músico de verdade.
Só que a paixão do caminhoneiro aposentado não ficou só no violino. Ele começou a flertar com o acordeom, depois com o violão, com o teclado e, para a surpresa de todos, ele tocava qualquer instrumento com a mesma maestria. Logo ele que antes nunca se interessou por música.
Quando percebeu que tinha jeito para a coisa, Didi decidiu levar a arte a sério. Passou a comprar livros de música e arranjou um professor. Hoje, ele tem mais de 40 instrumentos e consegue tocar todos eles, vai do piano à flauta com a mesma facilidade. Toca até berrante. “A música é assim, a gente aprende um instrumento e automaticamente ganha facilidade para tocar outros”, justifica. Se soubesse dessa facilidade desde cedo, Didi poderia ter construído uma carreira como artista. “Comecei a tocar com mais de 50 anos e hoje levo os estudos a sério, vou ao conservatório aprender piano e aproveito para tocar escalas e exercitar os campos harmônicos em todos os outros instrumentos”.
O músico tem pouco tempo para se dedicar a tantos instrumentos, pois tem que cuidar de seus caminhões, contratação de fretes, administração da empresa, acompanhar os caminhões pela internet, frequentar a igreja, frenquentar o conservatório e ainda ser professor. “Aceitei o desafio de ser professor de música como voluntário no Projeto Piá e acho que essa tarefa está me fazendo bem, pois estou ajudando a tirar garotos das ruas, dando a eles um pouco de minha paixão pela música e ainda exercitando minha capacidade didática”. Para ele, o fato de ter que ensinar o obriga a conhecer cada vez mais de música.
Para Didi, seu envolvimento com a música não só deu uma ocupação prazerosa a um aposentado, quanto deu-lhe novas perspectivas. Se antes ele mal conhecia algumas canções de viola, hoje é um entendido em Beethoven, Brahms, Mozart, Dvořák Gustav Mahler, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, Altamiro Carrilho, todos grandes mestres, novos amigos.
Para dona Luzia restou um consolo: ela perdeu a sala de visitas, mas ganhou um músico de boa qualidade.
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